O agronegócio brasileiro vive um período de “compasso de espera” estratégico após o adiamento da lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR), mas o sinal de alerta permanece aceso. Em debate sobre os novos contornos do comércio global, especialistas da cooperativa COMIGO, uma das maiores do país, detalharam os gargalos operacionais e os riscos comerciais impostos pelas novas exigências socioambientais.
A “Trava” Logística da Segregação
O principal entrave não é apenas a conformidade da fazenda, mas a logística de exportação. Para Israel Freitas, gerente comercial da COMIGO, a exigência europeia de que o produto não se misture com origens “não certificadas” cria um desafio monumental de infraestrutura.
“Quando eu recebo um caminhão de soja que atende ao requisito, ele não pode ser misturado com outra soja que não atenda. No transporte ferroviário e nos grandes armazéns, essa segregação física é o ponto de maior dificuldade técnica”, explica Israel Freitas.
O executivo destaca que a Europa é o destino de 50% do farelo de soja exportado pelo Brasil. “Embora a China leve mais grãos, a Europa é quem melhor remunera o farelo. Se o Brasil não se adequar, corre o risco de ficar restrito a mercados que pagam menos pelo produto processado”, alerta o gerente.
O Rigor da Data de Corte e a Soberania Legal
Do ponto de vista normativo, a assessora de sustentabilidade da COMIGO, Francimar Duarte, ressalta que a EUDR cria uma camada adicional de complexidade ao ignorar a flexibilidade do Código Florestal brasileiro. A lei europeia estabelece 31 de dezembro de 2020 como data de corte para qualquer supressão de vegetação, mesmo que legalizada.
“O regulamento europeu é taxativo: a propriedade não pode ter realizado desmatamento, seja ele autorizado ou não, após 2020. Além disso, o importador europeu passa a exigir o cumprimento rigoroso da legislação do país de origem, o que coloca o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e as questões trabalhistas no centro da mesa de negociação”, pontua Francimar.
Segundo a assessora, a postergação da lei para o final de 2025 foi um movimento necessário do bloco europeu diante da incapacidade dos próprios países membros e fornecedores de operacionalizarem a rastreabilidade em tempo recorde. “Esse fôlego é essencial para ajustarmos os sistemas de monitoramento via satélite e a integração de dados das propriedades”.
O Diagnóstico do Campo: Profissionalismo e Inconsistências
Apesar da pressão externa, os dados internos da COMIGO revelam que o produtor do Centro-Oeste já percorreu grande parte do caminho. Israel Freitas aponta que, em levantamentos recentes em plataformas de monitoramento, o índice de conformidade é surpreendente.
“A boa notícia para o nosso cooperado é que o diagnóstico mostra entre 97% a 98% de conformidade. O produtor brasileiro já faz o dever de casa seguindo o Código Florestal, que é o mais rígido do mundo. O que precisamos agora é transformar essa conformidade em dados auditáveis”, afirma Israel Freitas.
Entretanto, o caminho burocrático ainda apresenta obstáculos internos. Francimar Duarte chama a atenção para a transição do sistema do CAR em Goiás, que tem gerado “vazios” de informação e dificultado a regularização ambiental para fins de crédito e comércio.
“O produtor muitas vezes está correto no campo, mas o sistema público falha no processamento. Isso gera uma insegurança que precisamos resolver internamente para que o produtor não seja penalizado injustamente pelo mercado externo”, observa a assessora.
Diversificação e Novas Exigências
O cenário de restrições não se limita ao velho continente. A COMIGO revela que o mercado asiático, embora menos vocal em questões ambientais que o europeu, também tem elevado a barra. Recentemente, a cooperativa obteve habilitação para exportar óleo de soja para a China, um processo que exigiu auditorias rigorosas.
“O mundo está caminhando para uma segregação de mercados. Quem tiver a informação e o rastro do produto na mão terá o prêmio de preço; quem não tiver, enfrentará barreiras técnicas que funcionam como verdadeiras sanções comerciais”, finaliza Israel Freitas.
RIOVERDERURAL





